Quando meu colega Bodhi veio com a ideia de caçar fantasmas na noite de Halloween em um barco abandonado, a primeira imagem que me veio à cabeça, é claro, foi essa:

Param param param – papararararam

Fantasmas! No Halloween! Em um navio abandonado! O que podia ser MAIS legal do que isso? Automaticamente imaginei luzes esquisitas, fumaça e pessoas escondidas fazendo barulhos estranhos para assustar os turistas – era dever moral participar. Eu e mais quatro colegas nos encontramos na frente da biblioteca e lá fomos nós. Chegamos super em cima da hora – o caminho à pé da Universidade até as docas leva meia hora, se você der uma corrida –, mas deu tudo certo. Ganhamos adesivos com os nossos nomes, assinamos um termo de compromisso e nos juntamos ao grupo de “ghostbusters” no andar de cima do navio.

O Planet Ship (os fantasmas não aparecem na foto, pena)

Os organizadores da “expedição” montaram uma tenda enorme pra acolher as cerca de trinta pessoas que estavam ali. No site, recomendavam que cada um trouxesse sua própria lanterna e baterias extras, então todo mundo teve tempo de checar o equipamento e ouvir as normas de segurança. Era proibido surtar e correr, por exemplo, já que o navio estava cheio de buracos e aberturas no chão. Depois, os monitores foram passando de grupo em grupo e entregando os instrumentos que seriam utilizados pra detectar a presença de espíritos no navio.

E é aí que começa a ficar divertido.

Eu fiquei responsável por um termômetro modernete. Ele mede a temperatura em espaços fechados e abertos simultaneamente, além de ter um pino que isola a temperatura de determinado objeto. Mas foi o meu colega Richard ficou com o brinquedo mais legal de todos: um detector de magnetismo. Se acontece alguma mudança brusca no ambiente – que é encarada como “interferência sobrenatural” –, luzinhas vermelhas piscam e um alarme é acionado. De acordo com os monitores, a gente devia checar esses instrumentos o tempo todo, porque qualquer mudança brusca pode ser um sinal de presença sobrenatural. Depois que peguei o termômetro, a monitora olhou no fundo dos meus olhos e explicou: “se você perceber uma mudança de temperatura entre quatro e cinco graus em pouco tempo, pode apostar que são espíritos”.

Minhas irmãs, que podem estar lendo isso agora (oi gente!), devem estar simplesmente rindo da minha cara. A verdade é que eu morro de medo dessas coisas. Meu maior talento da infância era fugir da brincadeira do copo. E o pior é que eu  não tinha medo de que o espírito mexesse o copo, e sim que ele me seguisse e fosse assombrar a minha casa. Uma criança que pensa no coletivo, olha aí.

Então. Depois de alguns minutos de espera, os grupos foram se organizando em uma fila para entrar no navio propriamente dito. Tudo era muito escuro, então tivemos que acender as lanternas para descer uma escada estreitíssima. Como a expedição durava três horas, cada grupo teria tempo de visitar quatro cômodos e se reuniria na ala principal do navio para uma sessão coletiva. Nosso grupo foi levado até uma sala minúscula, com bastante entulho e aquele cheiro típico de casas em construção. Bill, um dos organizadores, ficou com a gente durante a primeira visita. Devia ter uns quarenta anos e monitorava as expedições há alguns meses.

“É a minha primeira vez nessa sala. Todo mundo diz que a presença aqui é bem poderosa. Eu realmente estou sentindo alguma coisa”, ele disse. Depois, nos encorajou a fazer perguntas para o possível espírito. Algo como: “se existe algum espírito aqui, pode fazer contato por meio dos nossos instrumentos, tocando alguém nos ombros, esfriando a temperatura da sala” e  coisas assim.

(Só pra deixar claro: eu não queria que ninguém do além desse um tapinha no meu ombro, obrigada.)

Ficamos uns bons cinco minutos em silêncio e nada acontecia. De vez em quando, alguém acendia a lanterna e jogava focos de luz pela sala, pra espantar o tédio. Foi Bill que quebrou o silêncio:

– Mais alguém está sentindo frio nas pernas?

Bodhi:

– É, eu também. Acho que é uma corrente de ar vindo da porta.

Silêncio.

Começou a ficar chato, sabe. A gente bem que queria ver alguma coisa. Um barulho que fosse, uma batida de porta, uma voz gutural falando “mate todo mundo”. Nada, gente. Nada de nada de nada. Bill pediu para a gente andar pelo espaço e mudar de lugar de vez em quando, mas o máximo que acontecia era um frio súbito vindo da janela entreaberta ou da porta.

E foi assim… por mais vinte minutos. Nenhuma entidade estava a fim de papo com a gente. Meio frustrado, Bill nos levou até a saída e comentou com a organizadora principal, June, que tinha cabelos cor-de-rosa: “ninguém sentiu nada. Não aconteceu nada.” Basicamente, essa foi uma profecia do resto da noite: não vimos, falamos, sentimos e nem recebemos tapinhas no ombro de nenhum fantasma. O pior era ouvir os gritos nas salas ao lado, cheias de pessoas assustadas e convencidas pelo sobrenatural. Como disse minha amiga Katherine, nós éramos “o grupo menos mágico de todos”.

Mas isso não quer dizer que a noite não teve pontos altos. Em um certo momento, todos os grupos se reuniram na área principal do navio, onde ficava o capitão. Era um galpão gigante, completamente atulhado de coisas aleatórias: cabos, pedaços de madeira, enfeites de natal (!), latas, sacolas. Fizemos um círculo no meio da sala, nos demos as mãos e June repetiu os procedimentos. “Se existe alguém conosco essa noite, pode se fazer presente tocando um de nós, interferindo nos nossos equipamentos, mudando a temperatura da sala… não queremos fazer mal, apenas conhecer a sua presença”.

Bill era dessas pessoas bastante sensíveis. Toda hora ele sentia algo ou via alguma coisa que ninguém mais percebia. “Não está calor? Não está frio? Aquela sombra não está mudando? Vocês viram alguém ali?”. Nessa hora, ele descontrolou. “O nome dela é Moira”, ele compartilhou com o grupo.

“Moira?”, perguntou June.

“Moira. E sabem do que mais? Moira era uma dama da noite“.

Não tava dando, gente. Não sabia se ria, gargalhava ou tentava manter a posição no círculo. A luz  não era muita, mas dava para perceber algumas silhuetas de pessoas se dobrando de riso contido. June entrou na brincadeira: “uuh, será que o capitão pedia esses serviços aqui no Planet?”. O climão passou, até que alguém ouviu um barulho estranho e todo mundo ficou quieto de novo. June voltou a pedir pro espírito aparecer e interferir nos equipamentos de detecção.

Se eu fosse um espírito, provavelmente estaria bem entediada.

O mais interessante nessa história toda é perceber como as pessoas se comportam no escuro e no silêncio. Uma das minhas amigas, a Flick, disse que se sentia totalmente em paz na escuridão. Pra ela, a noite era hora de dormir – e nada de mal pode acontecer enquanto você dorme. Mas essa não parecia ser a filosofia de vida da menina que estava na minha frente no círculo, há vários passos de distância: toda hora ela dava gritinhos e dizia que “estava sentindo alguma coisa” no cabelo e nos ombros, completamente apavorada. Hehe.

De resto, ninguém sentia mais nada. Depois meia hora de silêncios, estalidos ocasionais da madeira e pessoas tensas, June pediu com firmeza: “se você estiver aí, Moira, dê um sinal. Mostre-se para nós de alguma forma. Não queremos fazer mal, apenas falar de você e saber que está conosco.”

BUM! Gritos desesperados e barulheira. Uma menina e um cara saíram do fundo do galpão, correndo e rindo, falando que tinham visto “alguma coisa” se mexer perto deles. “Sem dúvida ela está aqui, gente, eu posso garantir”, disse o cara. Quase dava para ouvir o sorriso do Bill se abrindo. Ficamos lá mais dez minutos, dessa vez bastante animados: toda hora alguém ouvia sons de passos, pessoas se mexendo no corredor, sons indefinidos…

“Ok, pessoal, está na hora de fazer uma pausa para o café. Todo mundo subindo, por favor!”, pediu a June, enquanto a maioria das pessoas jogava focos de luz no fundo do galpão, com cara de susto. Meu grupinho se reuniu na frente da lanchonete e pedimos um chocolate quente pra fugir do frio. Quando voltamos para a expedição, fomos levados até o lugar “mais assombrado” do navio, de acordo com a June. “Lembrem-se que foi aqui que ouvimos a maior parte dos barulhos nessa noite. Fiquem atentos e me avisem se qualquer coisa acontecer.”

Acho que essa foi uma das partes mais divertidas da noite. Primeiro porque, bizarramente, a temperatura realmente abaixou muito – estava 26 graus quando chegamos e bateu em 22 –, o detector magnético piscou uma vez e, embalados pela emoção, todos começaram a contar histórias de fantasma da infância. Não vale a pena repetir todas elas, mas foram boas. =)

No quarto cômodo, havia um tabuleiro de bate-papo com o além que tinha as palavras “sim” e um “não” gravadas em dourado. Um dos monitores se propôs a fazer uma roda de perguntas para o fantasma e ver se ele respondia. Todos colocaram o dedo indicador em uma pecinha de metal e fomos perguntando:

– Você é homem?

– Qual o seu nome?

– Como você morreu?

– Quantos anos você tem?

– Quem é Charlie? – Perguntou a Katherine.

Todo mundo olhou pra ela ao mesmo tempo com uns olhos desse tamanho.

“Ai gente, sei lá. Quando vocês perguntaram o nome do espírito, apareceu Charlie na minha cabeça.”

Flick: “Hahahaha, na minha apareceu Charlotte!”

Halloween é isso: fantasmas indecisos sobre seus próprios gêneros.

No fim das contas, nossa expedição caça-fantasmas não rendeu nada além de risadas ótimas, um monte de piadas internas e um passeio pela noite de Halloween em Liverpool, que é uma das coisas mais divertidas que eu já vi na vida. A cidade inteira estava dominada por zumbis, Coringas, fantasmas, policiais sexys, tigres, palhaços, abóboras, bebês. Grupos enormes de mortos-vivos e fadas saíam de restaurantes chineses com guarda-chuvas a postos. Surreal.

E inesquecível. =)

{Editado: estava lendo esse artigo do meu autor favorito e encontrei um trecho que resume exatamente o que foi a noite de Halloween em L’pool:

Fear is a wonderful thing, in small doses. You ride the ghost train into the darkness, knowing that eventually the doors will open and you will step out into the daylight once again. It’s always reassuring to know that you’re still here, still safe. That nothing strange has happened, not really. It’s good to be a child again, for a little while, and to fear — not governments, not regulations, not infidelities or accountants or distant wars, but ghosts and such things that don’t exist, and even if they do, can do nothing to hurt us.

Sweet.}

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I don’t know why you say goodbye I say hello

Então é isso, pessoal: cheguei em Liverpool.

E já fui embora. haha

Olhem só a tragédia. Meus tios incríveis toparam sair de casa cedinho e encarar mais de duzentas e cinquenta milhas de viagem rumo à cidade mais beatlemaníaca do mundo. A princípio, não era uma aventura tão ousada assim – a estimativa do GPS era de cerca de três horas de meia de viagem. Tudo certo. O problema é que aconteceu um acidente de trânsito dos brabos em uma das principais rotas de Liverpool e, bom, nem preciso contar o que sucedeu. A viagem de três horas e meia foi feita em dez horas. Fizemos um retorno esperto aqui, seguimos para o countryside e, de retorno em retorno, finalmente conseguimos ultrapassar o trecho bloqueado da estrada e seguir o caminho da roça.

Depois de doze CDs (incluindo dois que tinham entre 25 e 30 faixas, haha), mais de dez cidadezinhas, uma estátua enorme de urso no meio do nada, duas paradas e muitos cookies e risadas, chegamos à cidade maravilhosa da Inglaterra. Foi um contraste absurdo passar por todas aquelas estradinhas de terra e simplesmente chegar em Liverpool, ao som de Beatles, depois de tanto tempo na estrada. Só a entrada da cidade já mostrou que tudo estava valendo a pena: Liverpool é grande, iluminada, emocionante, agitada e e realmente especial. =)

Fui até a minha hospedagem, mas não tinha muita esperança de entrar: a gerente das acomodações já tinha ido embora. Well, that’s life. Hora de achar um hotel para passar a noite, né?

Pã.

Eu disse que Liverpool é uma cidade especial. Tão especial que estava acomodando um baita evento na noite de ontem. Não soubemos de muitos detalhes, apenas que era um evento do Labour Party e que lotou todos, todos, TODOS os hotéis. Tony Blair is in da house, imaginamos. Os atendentes do hotel que tentamos nos hospedar foram sensacionais e começaram a ligar pra cada-hotel-da-cidade, na esperança de achar algum lugar pra gente.

Full. Full. Fully booked. Resistance is futile. 

A solução veio em forma de nome engraçado: Runcorn, uma cidadezinha ao lado de L’pool que tinha um hotel com (poucas) vagas. É de onde estou escrevendo agora, por sinal. Volto amanhã para Liverpool, para a minha casa e para as aulas. Mas já guardo Runcorn no coração, que me tratou tão bem. =)

E vamos que vamos!