arte + ciência

25/04/2012

Imagem

Since the fading of the original Enlightenment during the late eighteenth and early nineteenth centuries, stubborn impasse has existed in the consilience of the humanities and natural sciences. One way to break it is to collate the creative process and writing styles of literature and scientific research. This might not prove so difficult as it first seems. Innovators in both of two domains are basically dreamers and storytellers. In the early stages of creation of both art and science, everything in the mind is a story.

Taí um artigo muito legal sobre o desenvolvimento do conhecimento humano, nossas limitações biológicas e o que isso tem a ver com o surgimento da arte e a nossa mania de compartimentar e segmentar coisas que são conectadas. 🙂 Bem bacana.

(Tô estudando e cheia de coisas para compartilhar aqui com vocês, mas acho que deu para perceber que atualização do blog não é meu forte, né?)

 

Liverpool tem uma história de amor muito interessante com o Titanic. Embora nunca tenha saído do porto scouser, boa parte do navio foi construída aqui, à beira do Mersey. Esse ano, em comemoração aos 100 anos do navio inafundável, Liverpool inteira vai se envolver num projeto maravilhoso chamado Sea Odyssey Giant Spetacular, a busca de uma garotinha gigante por seu tio, irmão de seu pai, que morreu no oceano. A “odisseia” começa na próxima sexta-feira, dia 20, e termina no domingo, e essa é a rota que ela vai fazer pela cidade.

Eu, que adoro intervenções urbanas e garotinhas creepy cantando sozinhas, estou decidida a perseguir a menina e o tio por Liverpool. Mal vejo a hora, ainda mais porque finalmente decidi o tema da minha dissertação e acho que tem muitos elementos em comum. Na verdade, acho sinceramente que vou chorar. Haha

(E pra quem fica falando que quer ir para Londres, Londres, Londres… me liga quando tiver dois gigantes andando dramaticamente por lá, ok? Hmpf!)

george puppetson

11/03/2012

Imagem

Sei que estou devendo muitos posts por aqui, pois é. a verdade é que tem sido difícil concentrar e escrever: as aventuras não param. 🙂 As boas e as ruins. Vivi durante um mês com vinte pounds, conheci gente de países rivais, fui em um speed dating com pessoas de todo canto do mundo, fui guia turística de Londres de duas amigas <3, conheci um integrante do Blitz, fui confundida com o amor do passado de um cantor… e levei meu George Harrison para passear! 😀

A foto acima é do meu querido George Puppetson, presente de aniversário da Tânia, minha amiga coisa-linda-do-coração <3. Ele ganhou um Tumblr próprio, onde pretendo registrar paisagens típicas e lugares desconhecidos de Liverpool.

Dia 23, completo seis meses aqui na Inglaterra. Mal dá pra acreditar que metade do curso já foi. Tanta coisa bacana, tanta assunto novo para contar. Ainda tem bastante por vir – serão os meses mais puxados, com toda a certeza -, mas já posso dizer que é uma baita experiência transformadora. =)

E mais uma coisinha: sugestões de posts são aceitas! Se você quiser perguntar alguma coisa sobre o curso, sobre Liverpool ou estudar fora, é só dizer nos comentários. Vou ficar feliz em tentar ajudar! 🙂

Não tenho televisão aqui em Liverpool. Na Inglaterra, é preciso ter uma licença para assistir TV ou programas ao vivo por streaming no computador.. e é uma nota preta pra obter. Se você não tem a licença e o governo decide bater na sua porta, a coisa fica ainda mais feia: a multa pode chegar a mil pounds. Essa medida começou há poucos anos, como forma de diminuir a pirataria online, e deixa bastante gente irritada. Eu não ligo muito, porque basicamente só assisto seriados ou vou ao cinema. Mas nos últimos dias, decidi acompanhar um programa pelo Youtube: Desperate Scousewives

É, você leu certo.

O nome é uma paródia com a série americana, mas a trama não tem nada a ver. Basicamente, é um grupo de garotas solteiras-lindas-na-vida que mora em Liverpool e tem que lidar com dramas pessoais. Só vi o primeiro episódio até agora e sei que é bem bobo, mas vale cada segundo. Primeiro porque tem cenas absolutamente lindas da cidade, dos pontos turísticos e da magiiiia de L’pool. E segundo, meus amigos, porque você não vai encontrar o sotaque scouse tão concentrado em um lugar só. É basicamente um guia prático de como entender esse dialeto gracinha e maluco que só existe aqui. ❤ 

Se você não estiver fazendo nada, nada mesmo, e não tiver nada, nada mesmo melhor pra fazer, fica aí o primeiro episódioTem todos no Youtube, disponibilizados pela própria emissora, mas infelizmente não dá para incorporar o vídeo no post.

E tá sem legenda, é pra assistir na raça mesmo. 🙂

Aviso: é inevitável tentar imitar o sotaque depois. Tô treinando, gente, tô treinando

As últimas semanas aqui em Liverpool tem sido bem puxadas. No dia 27, eu e meus colegas temos que entregar dois ensaios, de matérias diferentes, para finalmente começarmos o segundo trimestre de aulas (que é o mais legal de todos, mas depois eu falo disso :)). Na próxima semana, também começam as reuniões com os orientadores da nossa dissertação final, de 15 mil palavras, que deverá ser apresentada a todos os alunos que fazem pós-graduação em literatura inglesa. É, pois é. Tá fácil não.

Deve ser por causa dessa tensão toda que minha amiga Flick começou seu convite de aniversário dizendo que sabia que todo mundo estava encalacrado até o pescoço de prazos e coisas pra fazer, mas que tinha uma proposta irrecusável para o aniversário dela. E tinha mesmo.

Uma murder mystery birthday party! =D

Achei que tinha entendido errado ou que estava lendo Agatha Christie demais, mas é isso mesmo. Basicamente, a festa tem um número bem pequeno de convidados e cada um é um personagem dentro de uma história que se passa nos anos 40. Durante o jantar, uma pessoa morre (é parte da história, tá gente? ninguém morre de verdade) – e todos se tornam automaticamente suspeitos pelo crime. O mais legal é que todo mundo recebe indicações de como deve se vestir e se comportar durante a festa… sem revelar os segredos por trás da história do seu personagem.

Acabei de receber a ficha da minha character. Ao que tudo indica, eu sou a “tia velha e esquecida” de um dos personagens da trama  e tenho um segredo de adolescência terrível. Devo usar peles falsas, um vestido de noite, um colar “de brilhantes” e, talvez, um chapéu.

A festa é na quarta que vem e eu garanto fotos. Se não me matarem antes, é claro.

De verdade? Os ingleses são jóia.

Fui para Manchester há algumas semanas  para um evento da faculdade, uma mesa-redonda sobre os trabalhos de Stanislaw Lem (um autor incrível, por sinal) e fiquei impressionada com a beleza da cidade. É tudo lindo. É tudo grande. É tudo iluminado.

E eu nem tinha visto a feira de Natal deles.

Mais do que um Feliz Natal, desejo que vocês conheçam e encontrem pessoas iluminadas pelo caminho. Pessoas que tenham a capacidade de fazer todos os seus dias brilharem. Esse, para mim, é o melhor presente possível.

E muito obrigada – sincero, doído, mais cafona que música do Michel Teló – a todo mundo que me ilumina. =)

Conheci o Albert Dock algumas semanas depois de ter me mudado para Liverpool, já que alguns dos passeios mais legais relacionados a Beatles começam nas docas. Da primeira vez que estive lá, não tive muito tempo para explorar, porque estava aguardando a Magical Mystery Tour (que logo mais vai ganhar um post por aqui). Mas quando tive a chance de visitar as docas pela segunda vez, percebi que o lugar, com ou sem Beatles, é bem legal – e já virou um dos meus pontos favoritos da cidade. Eis os motivos:

1) O pôr-do-sol. Essa área das docas está cheia de banquinhos compridos para acomodar casais. E se você é um fã incontrolável de gaivotas, considere um bônus: dá para ver um monte delas andando na beira do mar.

2) A “London Eye” de Liverpool! Hehe.

3) As Super Lamb Bananas. Essas obras de arte são símbolo de Liverpool e foram criadas por um artista japonês chamado Taro Chiezo. Lembrando que o Albert Dock reúne algumas das galerias de arte mais importantes da cidade, como o Tate Museum e o Museum of Liverpool.

4) Navios-fantasma! \o/ Foi no Albert Dock que eu vivi minha primeira experiência como caçadora de espíritos. Infelizmente não deu muito certo, mas fazer o quê, né? (E desculpem pela qualidade dessa foto. Eu queria muito tirar uma do navio, mas estava tão escuro! :()

5) The Beatles Story. O mais incrível-sensacional-fantástico-estupendo-museu-dos-Beatles-que-merece-um post-só-para-ele-e-por-isso-não-vou-comentar-aqui.

6) Carrinhos de sorvete vintage. Assim, de bobeira. 🙂

7) A tradição dos cadeados. Casais apaixonados do mundo inteiro (é sério!) vão até o Albert Dock para selar a eternidade do romance com um cadeado com o nome dos dois preso nas correntes das docas. Fiz uma pesquisa básica no Google e, pelo que li, essa tradição só acontece em Liverpool e em Paris. Tão bonitinho. =”)

E aí, gostaram? Bem legal, né? Eu adoro esse lugar. Até resolvi caprichar um pouquinho mais no tratamento das fotos dessa vez. Um brinde ao Picnik! 😀

Desde que cheguei em Liverpool, tenho topado muito com essa frase aí do título. “You’ll never walk alone”, o lema do Liverpool Football Club, está espalhado pela cidade inteira. No começo, achava que isso acontecia porque o pessoal de Liverpool é realmente apaixonado por futebol – dá-lhe conversas com taxistas e vendedores sobre o grande Ronaldo. Mas depois de um tempo, a vida passando, comecei a sacar a verdade por trás dessa frase.

A verdade é que esse é o espírito de Liverpool. Essas quatro palavras estão espalhadas por aí como se fossem post-its para lembrar e informar que, em Liverpool, o abandono é opcional. Que por trás do sotaque curioso, dos trejeitos e das reações mais engraçadas do mundo (que merecem um post próprio), existe um povo muito acolhedor, caloroso e espetacularmente sensível. Talvez Eleanor Rigby estivesse procurando no lugar errado, afinal.

(E quando a saudade aperta a ponto de não caber mais dentro dos limites do sotaque, a surpresa boa é ver que nada mudou nas amizades do outro lado. Na minha cabeça, minha família incrível e meus amigos brasileiros andam o tempo inteiro ao meu lado. Mal sabem vocês. =))

Há dois meses e meio eu moro sozinha em Liverpool.

But I’ll never walk alone.

(A foto do post é da minha querida amiga Thais, uma das pessoas que está por perto mesmo estando assim lonjão de mim. =) E foi tirada num pub no Brasil! Ironias, né?)

ano novo

05/11/2011

Tinha esquecido que hoje é Bonfire Night!



Nunca tinha visto fogos de artifício tão, mas TÃO de perto. Dei sorte de morar bem ao lado de um parque que fez um big evento pra hoje. (Eu bem que achei estranho ouvir tantas músicas apoteóticas à tarde). Foram uns 15, 20 minutos de fogos.

E uma das coisas mais lindas que eu já vi na vida.

=”)

O mais legal é que minha câmera ruim conseguiu captar (mais ou menos, tá) o jeito que míopes enxergam fogos de artifício sem óculos. Sente só:

Ouié.

Feliz 2011.2, pessoal.

Quando meu colega Bodhi veio com a ideia de caçar fantasmas na noite de Halloween em um barco abandonado, a primeira imagem que me veio à cabeça, é claro, foi essa:

Param param param – papararararam

Fantasmas! No Halloween! Em um navio abandonado! O que podia ser MAIS legal do que isso? Automaticamente imaginei luzes esquisitas, fumaça e pessoas escondidas fazendo barulhos estranhos para assustar os turistas – era dever moral participar. Eu e mais quatro colegas nos encontramos na frente da biblioteca e lá fomos nós. Chegamos super em cima da hora – o caminho à pé da Universidade até as docas leva meia hora, se você der uma corrida –, mas deu tudo certo. Ganhamos adesivos com os nossos nomes, assinamos um termo de compromisso e nos juntamos ao grupo de “ghostbusters” no andar de cima do navio.

O Planet Ship (os fantasmas não aparecem na foto, pena)

Os organizadores da “expedição” montaram uma tenda enorme pra acolher as cerca de trinta pessoas que estavam ali. No site, recomendavam que cada um trouxesse sua própria lanterna e baterias extras, então todo mundo teve tempo de checar o equipamento e ouvir as normas de segurança. Era proibido surtar e correr, por exemplo, já que o navio estava cheio de buracos e aberturas no chão. Depois, os monitores foram passando de grupo em grupo e entregando os instrumentos que seriam utilizados pra detectar a presença de espíritos no navio.

E é aí que começa a ficar divertido.

Eu fiquei responsável por um termômetro modernete. Ele mede a temperatura em espaços fechados e abertos simultaneamente, além de ter um pino que isola a temperatura de determinado objeto. Mas foi o meu colega Richard ficou com o brinquedo mais legal de todos: um detector de magnetismo. Se acontece alguma mudança brusca no ambiente – que é encarada como “interferência sobrenatural” –, luzinhas vermelhas piscam e um alarme é acionado. De acordo com os monitores, a gente devia checar esses instrumentos o tempo todo, porque qualquer mudança brusca pode ser um sinal de presença sobrenatural. Depois que peguei o termômetro, a monitora olhou no fundo dos meus olhos e explicou: “se você perceber uma mudança de temperatura entre quatro e cinco graus em pouco tempo, pode apostar que são espíritos”.

Minhas irmãs, que podem estar lendo isso agora (oi gente!), devem estar simplesmente rindo da minha cara. A verdade é que eu morro de medo dessas coisas. Meu maior talento da infância era fugir da brincadeira do copo. E o pior é que eu  não tinha medo de que o espírito mexesse o copo, e sim que ele me seguisse e fosse assombrar a minha casa. Uma criança que pensa no coletivo, olha aí.

Então. Depois de alguns minutos de espera, os grupos foram se organizando em uma fila para entrar no navio propriamente dito. Tudo era muito escuro, então tivemos que acender as lanternas para descer uma escada estreitíssima. Como a expedição durava três horas, cada grupo teria tempo de visitar quatro cômodos e se reuniria na ala principal do navio para uma sessão coletiva. Nosso grupo foi levado até uma sala minúscula, com bastante entulho e aquele cheiro típico de casas em construção. Bill, um dos organizadores, ficou com a gente durante a primeira visita. Devia ter uns quarenta anos e monitorava as expedições há alguns meses.

“É a minha primeira vez nessa sala. Todo mundo diz que a presença aqui é bem poderosa. Eu realmente estou sentindo alguma coisa”, ele disse. Depois, nos encorajou a fazer perguntas para o possível espírito. Algo como: “se existe algum espírito aqui, pode fazer contato por meio dos nossos instrumentos, tocando alguém nos ombros, esfriando a temperatura da sala” e  coisas assim.

(Só pra deixar claro: eu não queria que ninguém do além desse um tapinha no meu ombro, obrigada.)

Ficamos uns bons cinco minutos em silêncio e nada acontecia. De vez em quando, alguém acendia a lanterna e jogava focos de luz pela sala, pra espantar o tédio. Foi Bill que quebrou o silêncio:

– Mais alguém está sentindo frio nas pernas?

Bodhi:

– É, eu também. Acho que é uma corrente de ar vindo da porta.

Silêncio.

Começou a ficar chato, sabe. A gente bem que queria ver alguma coisa. Um barulho que fosse, uma batida de porta, uma voz gutural falando “mate todo mundo”. Nada, gente. Nada de nada de nada. Bill pediu para a gente andar pelo espaço e mudar de lugar de vez em quando, mas o máximo que acontecia era um frio súbito vindo da janela entreaberta ou da porta.

E foi assim… por mais vinte minutos. Nenhuma entidade estava a fim de papo com a gente. Meio frustrado, Bill nos levou até a saída e comentou com a organizadora principal, June, que tinha cabelos cor-de-rosa: “ninguém sentiu nada. Não aconteceu nada.” Basicamente, essa foi uma profecia do resto da noite: não vimos, falamos, sentimos e nem recebemos tapinhas no ombro de nenhum fantasma. O pior era ouvir os gritos nas salas ao lado, cheias de pessoas assustadas e convencidas pelo sobrenatural. Como disse minha amiga Katherine, nós éramos “o grupo menos mágico de todos”.

Mas isso não quer dizer que a noite não teve pontos altos. Em um certo momento, todos os grupos se reuniram na área principal do navio, onde ficava o capitão. Era um galpão gigante, completamente atulhado de coisas aleatórias: cabos, pedaços de madeira, enfeites de natal (!), latas, sacolas. Fizemos um círculo no meio da sala, nos demos as mãos e June repetiu os procedimentos. “Se existe alguém conosco essa noite, pode se fazer presente tocando um de nós, interferindo nos nossos equipamentos, mudando a temperatura da sala… não queremos fazer mal, apenas conhecer a sua presença”.

Bill era dessas pessoas bastante sensíveis. Toda hora ele sentia algo ou via alguma coisa que ninguém mais percebia. “Não está calor? Não está frio? Aquela sombra não está mudando? Vocês viram alguém ali?”. Nessa hora, ele descontrolou. “O nome dela é Moira”, ele compartilhou com o grupo.

“Moira?”, perguntou June.

“Moira. E sabem do que mais? Moira era uma dama da noite“.

Não tava dando, gente. Não sabia se ria, gargalhava ou tentava manter a posição no círculo. A luz  não era muita, mas dava para perceber algumas silhuetas de pessoas se dobrando de riso contido. June entrou na brincadeira: “uuh, será que o capitão pedia esses serviços aqui no Planet?”. O climão passou, até que alguém ouviu um barulho estranho e todo mundo ficou quieto de novo. June voltou a pedir pro espírito aparecer e interferir nos equipamentos de detecção.

Se eu fosse um espírito, provavelmente estaria bem entediada.

O mais interessante nessa história toda é perceber como as pessoas se comportam no escuro e no silêncio. Uma das minhas amigas, a Flick, disse que se sentia totalmente em paz na escuridão. Pra ela, a noite era hora de dormir – e nada de mal pode acontecer enquanto você dorme. Mas essa não parecia ser a filosofia de vida da menina que estava na minha frente no círculo, há vários passos de distância: toda hora ela dava gritinhos e dizia que “estava sentindo alguma coisa” no cabelo e nos ombros, completamente apavorada. Hehe.

De resto, ninguém sentia mais nada. Depois meia hora de silêncios, estalidos ocasionais da madeira e pessoas tensas, June pediu com firmeza: “se você estiver aí, Moira, dê um sinal. Mostre-se para nós de alguma forma. Não queremos fazer mal, apenas falar de você e saber que está conosco.”

BUM! Gritos desesperados e barulheira. Uma menina e um cara saíram do fundo do galpão, correndo e rindo, falando que tinham visto “alguma coisa” se mexer perto deles. “Sem dúvida ela está aqui, gente, eu posso garantir”, disse o cara. Quase dava para ouvir o sorriso do Bill se abrindo. Ficamos lá mais dez minutos, dessa vez bastante animados: toda hora alguém ouvia sons de passos, pessoas se mexendo no corredor, sons indefinidos…

“Ok, pessoal, está na hora de fazer uma pausa para o café. Todo mundo subindo, por favor!”, pediu a June, enquanto a maioria das pessoas jogava focos de luz no fundo do galpão, com cara de susto. Meu grupinho se reuniu na frente da lanchonete e pedimos um chocolate quente pra fugir do frio. Quando voltamos para a expedição, fomos levados até o lugar “mais assombrado” do navio, de acordo com a June. “Lembrem-se que foi aqui que ouvimos a maior parte dos barulhos nessa noite. Fiquem atentos e me avisem se qualquer coisa acontecer.”

Acho que essa foi uma das partes mais divertidas da noite. Primeiro porque, bizarramente, a temperatura realmente abaixou muito – estava 26 graus quando chegamos e bateu em 22 –, o detector magnético piscou uma vez e, embalados pela emoção, todos começaram a contar histórias de fantasma da infância. Não vale a pena repetir todas elas, mas foram boas. =)

No quarto cômodo, havia um tabuleiro de bate-papo com o além que tinha as palavras “sim” e um “não” gravadas em dourado. Um dos monitores se propôs a fazer uma roda de perguntas para o fantasma e ver se ele respondia. Todos colocaram o dedo indicador em uma pecinha de metal e fomos perguntando:

– Você é homem?

– Qual o seu nome?

– Como você morreu?

– Quantos anos você tem?

– Quem é Charlie? – Perguntou a Katherine.

Todo mundo olhou pra ela ao mesmo tempo com uns olhos desse tamanho.

“Ai gente, sei lá. Quando vocês perguntaram o nome do espírito, apareceu Charlie na minha cabeça.”

Flick: “Hahahaha, na minha apareceu Charlotte!”

Halloween é isso: fantasmas indecisos sobre seus próprios gêneros.

No fim das contas, nossa expedição caça-fantasmas não rendeu nada além de risadas ótimas, um monte de piadas internas e um passeio pela noite de Halloween em Liverpool, que é uma das coisas mais divertidas que eu já vi na vida. A cidade inteira estava dominada por zumbis, Coringas, fantasmas, policiais sexys, tigres, palhaços, abóboras, bebês. Grupos enormes de mortos-vivos e fadas saíam de restaurantes chineses com guarda-chuvas a postos. Surreal.

E inesquecível. =)

{Editado: estava lendo esse artigo do meu autor favorito e encontrei um trecho que resume exatamente o que foi a noite de Halloween em L’pool:

Fear is a wonderful thing, in small doses. You ride the ghost train into the darkness, knowing that eventually the doors will open and you will step out into the daylight once again. It’s always reassuring to know that you’re still here, still safe. That nothing strange has happened, not really. It’s good to be a child again, for a little while, and to fear — not governments, not regulations, not infidelities or accountants or distant wars, but ghosts and such things that don’t exist, and even if they do, can do nothing to hurt us.

Sweet.}